Por: Mike Martins
Este texto, "Juízos de valor e juízos de realidade", é resultado da participação de Durkheim em um congresso de filosofia em Bolonha e está disponível no livro: "Sociologia e Filosofia" da editora Martin Claret que reune alguns textos de cunho mais filosófico do autor.
Decidi postar um resumo desta pequena obra, por achar muito interessante e polêmicas as idéias que Durkheim expressa aqui, poderemos discutir e criticar suas idéias, (sabemos a importância que tem esse autor) e esse texto pode ser um bom "primeiro contato" com ele.
Vou dividir esse resumo em três partes.
Durkheim, nesse texto procura responder a uma das mais dificeis questões da história da filosofia: Em meio a uma multidão de opiniões diferentes com relação ao valor das coisas, como estabelecer valores comuns? Como seria possível dizer que nas questões humanas, existe uma escala de valores comum e verdadeira entre os homens de uma sociedade, se o que vemos é um confronto de idéias contraditórias?
Uma necessária definição: O que são juízos de valor e o que são juízos de realidade?
Juízos de valor: são juízos nos quais os indivíduos exprimem o valor de uma coisa de acordo com a forma como ela é percebida por sua consciência. Ex: "Adoro caçar! Prefiro a cerveja ao vinho". Esses juízos são muito pessoais e só constituem uma verdade quando ligados aos seus emissores.
Juízos de realidade: são juízos que exprimem atributos constitutivos da coisa. Ex: "Os corpos são pesados. O volume dos gases varia na razão inversa da pressão que eles sofrem. A Terra gira ao redor do sol."
Esses juízos são objetivos, e independem da percepção subjetiva dos indivíduos para ter realidade.
Porém, para Durkheim, os juízos de valor podem se tornar juízos de realidade e ganhar um caráter objetivo. Quando falamos por exemplo: "Essa jóia vale muito" ou "Esse homem é uma pessoa excelente" ou "Joãozinho é muito inteligente", não estaríamos deixando entendido implicitamente nessas frases que, esses valores podem e devem ser percebidos desta forma por qualquer um, e que para isso deve existir uma base comum sobre a qual possamos entrar em acordo com relação a esses juízos, e desse modo eles se transformariam em juízos de realidade?
E, além dessa evidência implicita no discurso, não existiriam outras?
O autor verifica mais três evidências:
1- Quando em uma conversa buscamos razões de ordem impessoal para justificar nossas opiniões. Ninguém contenta-se em só afirmar que suas opiniões são só suas e não precisam ser adotadas por mais ninguém. Todos nós tentamos vez ou outra demonstrar que sobre certas coisas todos devem pensar da mesma forma.
2- Não é pelo fato de eu não ver valor na música da banda Restart que ela perde seu valor. A minha apreciação pessoal sobre a música deles, não influencia de forma direta a percepção da sociedade a esse respeito.
3- Posso ser uma pessoa de caráter duvidoso, e nem por isso necessariamente deixarei de ser capaz de considerar como boa, uma conduta prática completamente contrária à minha.
Todas essas evidências mostram que os valores estão fora de mim, (não posso extingui-los de acordo com a minha vontade) mas ao mesmo tempo dentro de mim, já que consigo os ver como valiosos independentemente de minhas preferências pessoais.
Se os valores parecem não depender de mim e não é possível alcançá-los através das ciências naturais, como é possível formas juízos objetivos a respeito dessas coisas?
terça-feira, 15 de março de 2011
domingo, 13 de março de 2011
David Hume: Tratado da natureza humana
Por: Mike Martins
Pessoal, para começar nossas trocas de idéias vou tratar deste texto de política do filósofo escocês David Hume.
A primeira coisa que precisamos saber para poder entender com clareza o pensamento de qualquer autor é saber qual é a dele? Qual o objetivo do autor com esse texto? Que perguntas ele está tentando responder?
Nesse trecho de seu livro que é objeto de nosso estudo, Hume está procurando responder às perguntas: Qual é a fonte da obediência civil? ou em outras palavras: Por que diabos nós obedecemos aos nossos governantes? Por que estaríamos agindo errado se nos rebelassemos contra eles? Por que temos o dever moral de nos submeter a essas autoridades? Estando cientes disso podemos passar para a análise do texto.
Ora, Hume nesse texto mantém um intenso diálogo nesse texto com as idéias propostas pelos pensadores da política, principalmete com Hobbes e Locke.
Tanto Hobbes, como Locke, defenderam a tese de que a origem do dever da obediência civil, da obediência ao governo estava fundamentada no "contrato social". Em um momento qualquer da história os homens de uma sociedade teriam se reunido e decidiram em comum acordo, ceder todos ou parte de seus direitos a um governante ou assémbleia, e assim instituíram o governo ou Estado. Ora, todos nós sabemos que não é justo, não é correto deixar de cumprir as promessas e os acordos estabelecidos. Portanto, a fonte de nossa obrigação seria uma promessa, a promessa feita no momento em que foi estabelecido o "contrato social".
No entanto, Hume procura ir além dessa explicação, ele procura um outro argumento a favor da obediência aos governantes, vejamos em suas próprias palavras:
Veja, assim que começam a conviver sob a tutela do Estado, os homens logo percebem que isso é vantajoso, seriamos obrigados a permanecer obedientes ao Estado porque isso é do nosso interesse:
Para o autor a constatação desse fato se encontra na consciência dos homens. Ele pergunta: Se os súditos estão realmente descontentes com o governo, por que não se rebelam? E chega a conclusão: Se continuam a obedecer só pode ser por interesse próprio ou por interesse público. Eles devem pesar as vantagens e desvantagens do governo e chegam a conclusão que é melhor obedecer. E, mesmo se existem algumas pessoas que já não veêm naquele poder, um poder legítimo, essa concepção não dominou o pensamento geral dos homens. E para o autor isso faz toda a diferença. A obrigação de obedecer permanece, porque:
Essa é apenas uma das idéias do texto e ainda precisa ser discutida mais a fundo. Tenho muita coisa ainda pra falar a respeito desse assunto. No entanto, eu não desejava iniciar com um texto muito longo e cansativo. Prefiri expor esses primeiros pontos para que após os comentários dos colegas possamos dar prosseguimento aos poucos na compreensão do texto.
Vamos trocar idéias.
Abraços
Pessoal, para começar nossas trocas de idéias vou tratar deste texto de política do filósofo escocês David Hume.
A primeira coisa que precisamos saber para poder entender com clareza o pensamento de qualquer autor é saber qual é a dele? Qual o objetivo do autor com esse texto? Que perguntas ele está tentando responder?
Nesse trecho de seu livro que é objeto de nosso estudo, Hume está procurando responder às perguntas: Qual é a fonte da obediência civil? ou em outras palavras: Por que diabos nós obedecemos aos nossos governantes? Por que estaríamos agindo errado se nos rebelassemos contra eles? Por que temos o dever moral de nos submeter a essas autoridades? Estando cientes disso podemos passar para a análise do texto.
Ora, Hume nesse texto mantém um intenso diálogo nesse texto com as idéias propostas pelos pensadores da política, principalmete com Hobbes e Locke.
Tanto Hobbes, como Locke, defenderam a tese de que a origem do dever da obediência civil, da obediência ao governo estava fundamentada no "contrato social". Em um momento qualquer da história os homens de uma sociedade teriam se reunido e decidiram em comum acordo, ceder todos ou parte de seus direitos a um governante ou assémbleia, e assim instituíram o governo ou Estado. Ora, todos nós sabemos que não é justo, não é correto deixar de cumprir as promessas e os acordos estabelecidos. Portanto, a fonte de nossa obrigação seria uma promessa, a promessa feita no momento em que foi estabelecido o "contrato social".
No entanto, Hume procura ir além dessa explicação, ele procura um outro argumento a favor da obediência aos governantes, vejamos em suas próprias palavras:
"O que afirmo é que, embora o dever da obediência civil se baseie inicialmente no da obrigação das promessas, e seja sustentado durante algum tempo por essa obrigação, tão logo as vantagens do governo são plenamente conhecidas e reconhecidas, ele imediatamente cria raízes próprias, passando a implicar uma obrigação e autoridade originais, independentes de qualquer contrato."Para Hume, o governo é uma invenção muito vantajosa. Como os homens sempre precisaram para conviver bem em sociedade de cumprir as três leis fundamentais (parágrafo 3), entre outras obrigações, a instituição de um poder encarregado de fazer leis e punir os infratores era indispensável para facilitar a organização da sociedade. Hume concorda com Hobbes que o homem é naturalmente mal, que prefere muitas vezes atender seus interesses e prejudicar o interesse público, por isso a formação de um poder coercitivo é inevitável para manter os súditos "na linha".
Veja, assim que começam a conviver sob a tutela do Estado, os homens logo percebem que isso é vantajoso, seriamos obrigados a permanecer obedientes ao Estado porque isso é do nosso interesse:
"Constato que esse interesse consiste na segurança e proteção de que desfrutamos na sociedade política, que nunca poderíamos alcançar quando inteiramente livres e independentes. Como o interesse, portanto, é a sanção imediata do governo, um não pode durar mais que o outro;"Você me diria, por que? Como podemos afirmar que as pessoas pensam assim? Como afirmar que é do interesse das pessoas continuar a serem governadas, se muitas vezes elas expressam insatisfação com relação a seus governos?
Para o autor a constatação desse fato se encontra na consciência dos homens. Ele pergunta: Se os súditos estão realmente descontentes com o governo, por que não se rebelam? E chega a conclusão: Se continuam a obedecer só pode ser por interesse próprio ou por interesse público. Eles devem pesar as vantagens e desvantagens do governo e chegam a conclusão que é melhor obedecer. E, mesmo se existem algumas pessoas que já não veêm naquele poder, um poder legítimo, essa concepção não dominou o pensamento geral dos homens. E para o autor isso faz toda a diferença. A obrigação de obedecer permanece, porque:
"A opinião geral dos homens tem alguma autoridade em todos os casos; mas, no caso da moral é absolutamente infálivel."Conclusão: a fonte da obediência civil é dupla. De um lado, obedeço porque é necessário cumprir as promessas feitas (dever privado), e de outro lado, obedeço porque a opinião pública ainda considera o governo como vantajoso, senão já haveria se rebelado (dever público).
Essa é apenas uma das idéias do texto e ainda precisa ser discutida mais a fundo. Tenho muita coisa ainda pra falar a respeito desse assunto. No entanto, eu não desejava iniciar com um texto muito longo e cansativo. Prefiri expor esses primeiros pontos para que após os comentários dos colegas possamos dar prosseguimento aos poucos na compreensão do texto.
Vamos trocar idéias.
Abraços
Assinar:
Postagens (Atom)