terça-feira, 15 de março de 2011

Émile Durkheim: Juízos de valor e juízos de realidade parte I

Por: Mike Martins

   Este texto, "Juízos de valor e juízos de realidade", é resultado da participação de Durkheim em um congresso de filosofia em Bolonha e está disponível no livro: "Sociologia e Filosofia" da editora Martin Claret que reune alguns textos de cunho mais filosófico do autor.
   Decidi postar um resumo desta pequena obra, por achar muito interessante e polêmicas as idéias que Durkheim expressa aqui, poderemos discutir e criticar suas idéias, (sabemos a importância que tem esse autor) e esse texto pode ser um bom "primeiro contato" com ele.
   Vou dividir esse resumo em três partes.
   Durkheim, nesse texto procura responder a uma das mais dificeis questões da história da filosofia: Em meio a uma multidão de opiniões diferentes com relação ao valor das coisas, como estabelecer valores comuns? Como seria possível dizer que nas questões humanas, existe uma escala de valores comum e verdadeira entre os homens de uma sociedade, se o que vemos é um confronto de idéias contraditórias?
  
   Uma necessária definição: O que são juízos de valor e o que são juízos de realidade?

   Juízos de valor: são juízos nos quais os indivíduos exprimem o valor de uma coisa de acordo com a forma como ela é percebida por sua consciência. Ex: "Adoro caçar! Prefiro a cerveja ao vinho".  Esses juízos são muito pessoais e só constituem uma verdade quando ligados aos seus emissores.
   Juízos de realidade: são juízos que exprimem atributos constitutivos da coisa. Ex: "Os corpos são pesados. O volume dos gases varia na razão inversa da pressão que eles sofrem. A Terra gira ao redor do sol."
Esses juízos são objetivos, e independem da percepção subjetiva dos indivíduos para ter realidade.
   Porém, para Durkheim, os juízos de valor podem se tornar juízos de realidade e ganhar um caráter objetivo. Quando falamos por exemplo: "Essa jóia vale muito" ou "Esse homem é uma pessoa excelente" ou "Joãozinho é muito inteligente", não estaríamos deixando entendido implicitamente nessas frases que, esses valores podem e devem ser percebidos desta forma por qualquer um, e que para isso deve existir uma base comum sobre a qual possamos entrar em acordo com relação a esses juízos, e desse modo eles se transformariam em juízos de realidade?
   E, além dessa evidência implicita no discurso, não existiriam outras?
   O autor verifica mais três evidências:
   1- Quando em uma conversa buscamos razões de ordem impessoal para justificar nossas opiniões.   Ninguém contenta-se em só afirmar que suas opiniões são só suas e não precisam ser adotadas por mais ninguém. Todos nós tentamos vez ou outra demonstrar que sobre certas coisas todos devem pensar da mesma forma.
   2- Não é pelo fato de eu não ver valor na música da banda Restart que ela perde seu valor. A minha apreciação pessoal sobre a música deles, não influencia de forma direta a percepção da sociedade a esse respeito.
   3- Posso ser uma pessoa de caráter duvidoso, e nem por isso necessariamente deixarei de ser capaz de considerar como boa, uma conduta prática completamente contrária à minha.
   Todas essas evidências mostram que os valores estão fora de mim, (não posso extingui-los de acordo com a minha vontade) mas ao mesmo tempo dentro de mim, já que consigo os ver como valiosos independentemente de minhas preferências pessoais.
   Se os valores parecem não depender de mim e não é possível alcançá-los através das ciências naturais, como é possível formas juízos objetivos a respeito dessas coisas?

domingo, 13 de março de 2011

David Hume: Tratado da natureza humana

Por: Mike Martins

    Pessoal, para começar nossas trocas de idéias vou tratar deste texto de política do filósofo escocês David Hume.
   
   A primeira coisa que precisamos saber para poder entender com clareza o pensamento de qualquer autor é saber qual é a dele? Qual o objetivo do autor com esse texto? Que perguntas ele está tentando responder?
  
   Nesse trecho de seu livro que é objeto de nosso estudo, Hume está procurando responder às perguntas: Qual é a fonte da obediência civil? ou em outras palavras: Por que diabos nós obedecemos aos nossos governantes? Por que estaríamos agindo errado se nos rebelassemos contra eles? Por que temos o dever moral de nos submeter a essas autoridades? Estando cientes disso podemos passar para a análise do texto.
   Ora, Hume nesse texto mantém um intenso diálogo nesse texto com as idéias propostas pelos pensadores da política, principalmete com Hobbes e Locke.
  Tanto Hobbes, como Locke, defenderam a tese de que a origem do dever da obediência civil, da obediência ao governo estava fundamentada no "contrato social". Em um momento qualquer da história os homens de uma sociedade teriam se reunido e decidiram em comum acordo, ceder todos ou parte de seus direitos a um governante ou assémbleia, e assim instituíram o governo ou Estado. Ora, todos nós sabemos que não é justo, não é correto deixar de cumprir as promessas e os acordos estabelecidos. Portanto, a fonte de nossa obrigação seria uma promessa, a promessa feita no momento em que foi estabelecido o "contrato social". 
  No entanto, Hume procura ir além dessa explicação, ele procura um outro argumento a favor da obediência aos governantes, vejamos em suas próprias palavras:
   "O que afirmo é que, embora o dever da obediência civil se baseie inicialmente no da obrigação das promessas, e seja sustentado durante algum tempo por essa obrigação, tão logo as vantagens do governo são plenamente conhecidas e reconhecidas, ele imediatamente cria raízes próprias, passando a implicar uma obrigação e autoridade originais, independentes de qualquer contrato."
   Para Hume, o governo é uma invenção muito vantajosa. Como os homens sempre precisaram para conviver bem em sociedade de cumprir as três leis fundamentais (parágrafo 3), entre outras obrigações, a instituição de um poder encarregado de fazer leis e punir os infratores era indispensável para facilitar a organização da sociedade. Hume concorda com Hobbes que o homem é naturalmente mal, que prefere muitas vezes atender seus interesses e prejudicar o interesse público, por isso a formação de um poder coercitivo é inevitável para manter os súditos "na linha".
   Veja, assim que começam a conviver sob a tutela do Estado, os homens logo percebem que isso é vantajoso, seriamos obrigados a permanecer obedientes ao Estado porque isso é do nosso interesse:
   "Constato que esse interesse consiste na segurança e proteção de que desfrutamos na sociedade política, que nunca poderíamos alcançar quando inteiramente livres e independentes. Como o interesse, portanto, é a sanção imediata do governo, um não pode durar mais que o outro;"
   Você me diria, por que? Como podemos afirmar que as pessoas pensam assim? Como afirmar que é do interesse das pessoas continuar a serem governadas, se muitas vezes elas expressam insatisfação com relação a seus governos?
   Para o autor a constatação desse fato se encontra na consciência dos homens. Ele pergunta: Se os súditos estão realmente descontentes com o governo, por que não se rebelam? E chega a conclusão: Se continuam a obedecer só pode ser por interesse próprio ou por interesse público. Eles devem pesar as vantagens e desvantagens do governo e chegam a conclusão que é melhor obedecer. E, mesmo se existem algumas pessoas que já não veêm naquele poder, um poder legítimo, essa concepção não dominou o pensamento geral dos homens. E para o autor isso faz toda a diferença. A obrigação de obedecer permanece, porque:
   "A opinião geral dos homens tem alguma autoridade em todos os casos; mas, no caso da moral é absolutamente infálivel."
  Conclusão: a fonte da obediência civil é dupla. De um lado, obedeço porque é necessário cumprir as promessas feitas (dever privado), e de outro lado, obedeço porque a opinião pública ainda considera o governo como vantajoso, senão já haveria se rebelado (dever público).
 
  Essa é apenas uma das idéias do texto e ainda precisa ser discutida mais a fundo. Tenho muita coisa ainda pra falar a respeito desse assunto. No entanto, eu não desejava iniciar com um texto muito longo e cansativo. Prefiri expor esses primeiros pontos para que após os comentários dos colegas possamos dar prosseguimento aos poucos na compreensão do texto.
 
  Vamos trocar idéias.
  Abraços